Monte Fuji: por que ele já foi considerado perigoso espiritualmente no Japão?

Hoje, milhões de pessoas reconhecem o Monte Fuji como um dos maiores cartões-postais do Japão. No entanto, no passado, os japoneses não enxergavam a montanha dessa forma.
Antes de atrair turistas do mundo todo, eles tratavam o Fuji como um lugar sagrado e, ao mesmo tempo, perigoso.
Durante séculos, muitos acreditaram que a montanha não era apenas um cenário bonito, mas sim uma força espiritual poderosa, capaz de proteger… ou destruir.
Um vulcão que inspirava medo

O Fuji é, na verdade, um vulcão ativo. A última grande erupção aconteceu em 1707, no período Edo, quando cinzas chegaram até Edo. Naquela época, como não existiam explicações científicas, muitos acreditavam que o fenômeno era um sinal de ira divina. Ou seja, não era um monte bonito, ele era visto como algo que poderia trazer destruição.
Você sabia que nem todos podiam subir o Monte Fuji?
Durante séculos, o acesso ao Fuji era restrito. Além disso, as mulheres foram proibidas de subir até o século XIX, e apenas praticantes espirituais tinham acesso completo. Grupos ligados ao Shugendō viam o Fuji como um local de treinamento espiritual extremo.
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Subir o Monte Fuji era um ritual, e não turismo
Hoje, subir o Fuji é uma experiência turística. No entanto, no passado, era algo completamente diferente.
- A subida era vista como ato espiritual de purificação
- Peregrinos acreditavam que chegariam ao topo “renascidos”
- Muitos faziam a jornada vestidos de branco, como símbolo de morte e renascimento
No entanto, havia riscos, pois o frio era extremo, havia falta de estrutura, então muitas mortes aconteciam durante a subida. Isso reforçava a ideia de que o Fuji “testava” quem não estava preparado.
A crença nos deuses da natureza

No xintoísmo, elementos da natureza possuem espíritos chamados kami. O Monte Fuji é associado à deusa Konohanasakuya-hime.
Ela representa a vida, a natureza, mas também o poder destrutivo dos vulcões. Por isso, existia uma crença forte: “Se a deusa não fosse respeitada, ela poderia causar desastres”.
Santuário Kitaguchi Hongu Fuji Sengen

Diante desse cenário de medo e respeito, surgiu o Santuário Kitaguchi Hongu Fuji Sengen. Esse santuário tinha uma função muito importante que era acalmar a deusa do Fuji, proteger a população das erupções e preparar espiritualmente os peregrinos.
Ele também era o ponto de partida tradicional para quem subia o Fuji pela rota Yoshida.
Uma “porta” para o mundo espiritual

O caminho até o santuário já mostra sua importância pela longa trilha cercada por cedros gigantes, lanternas de pedra cobertas de musgo, e o silêncio e a atmosfera espiritual.
Muitos acreditam que ali começa a transição entre o mundo comum, e o mundo espiritual do Fuji.
Mesmo com toda a tecnologia e explicações científicas, essa visão espiritual do Fuji ainda influencia a cultura japonesa. O Fuji continua sendo considerado sagrado e muitos japoneses ainda visitam o santuário antes de subir.
Antes de ser um destino turístico, o Fuji era um lugar onde as pessoas iam para enfrentar seus limites físicos e espirituais.
Imagens: Canva e acervo pessoal de Ligia Cortez
Matéria feita a partir da indicação de Lígia Cortez, guia turística no Japão.

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