Pandemia revela a pobreza oculta do Japão

Yuichihiro ficou emocionado ao pegar um pacote de comida durante uma distribuição de alimentos em Tóquio, que oferece ajuda ao número crescente de pessoas que foram empurrados para a pobreza pela pandemia do coronavírus.

A terceira maior economia do mundo, em comparação com muitos outros países, foi relativamente menos afetado pelo surto do coronavírus, com cerca de 4.700 mortes e em grande parte sem os bloqueios drásticos vistos em outros países.

Com uma taxa de desemprego abaixo de 3% e uma reputação de forte segurança social, o Japão parece bem preparado para resistir às consequências econômicas da pandemia.

Mas os ativistas dizem que os mais vulneráveis foram duramente atingidos, com as estatísticas mascarando a alta taxa de subemprego e trabalho temporário mal remunerado.

Crédito: Foto AFP.

“Não há trabalho, absolutamente nada”, disse um operário de construção civil de 46 anos, enquanto segurava uma sacola plástica com itens essenciais em uma rua fria no inverno da capital. ” Isso não é muito divulgado na mídia, mas muitas pessoas estão dormindo em estações de trem e em caixas de papelão. Algumas estão morrendo de fome”.

“A pandemia, o aumento de desemprego e a queda dos salários atingiram diretamente os trabalhadores pobres, pessoas que mal conseguiam sobreviver antes”, disse Ren Ohnishi, presidente do Centro de Apoio Moyai, uma ONG que luta contra a pobreza.

Crédito: Foto AFP.

Cerca de 40% dos trabalhadores estão em empregos “não regulares” vulneráveis, com salários mais baixos e contratos que podem ser rescindidos facilmente.

O acesso à assistência social pode ser bastante difícil. Yuichihiro disse que foi mandado de um escritório do governo para outro em vão, antes de ser informado que a assistência era apenas para quem tinha filhos. “Mas há muitos adultos que não tem o que comer”, disse ele.

Mais de 10 milhões de pessoas no Japão vivem com menos de 2 milhões de ienes por ano, enquanto uma em cada seis vive em “pobreza relativa”, com rendimentos inferiores à metade da média nacional.

Economistas dizem que meio milhão de pessoas perderam seus empregos nos últimos seis meses, e ativistas dizem que o efeito cascata está se espalhando por toda a população.

“A classe média está entrando em colapso”, disse Kenji Seino, presidente da ONG Tenohasi.

Cerca de 250 pessoas fizeram fila no distrito de Ikebukuro, em Tóquio, para receber ajuda da ONG Tenohasi, entre comidas, roupas, sacos de dormir e ajuda médica. “Pessoas que já estavam lutando foram confrontadas com o coronavírus. Elas estavam na corda bamba e a corda simplesmente se partiu”, acrescentou Seino.

Voluntários da ONG Tenohasi em um parque no distrito de Ikebukuro, em Tóquio. Crédito: Foto AFP.

Especialistas alertam que os problemas econômicos causados pelo coronavírus podem estar contribuindo para o aumento da taxa de suicídio observada no final do ano passado. De acordo com Taro Saito, do Instituto de Pesquisa NLI, um aumento de 1% na taxa de desemprego no Japão se traduz em cerca de 3.000 suicídios adicionais por ano.

As mulheres, em particular, estão enfrentando dificuldades econômicas porque muitas trabalham com contratos temporários no varejo, restaurantes e hotéis – todos os setores duramente atingidos pela pandemia.

Os especialistas dizem que as mulheres são mais resistentes em procurar ajuda, mas com esta grave crise, já se vê mais mulheres e mães com filhos pequenos nos centros de ajuda do que o normal.

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“Algumas mulheres acham que seus filhos não conseguirão andar de cabeça erguida se estiverem no serviço social”, disse Seino.

Embora as estatísticas mostrem um aumento nas solicitações de assistência pública, Ohnishi, da ONG Moyai, disse que a vergonha e o estigma de ser beneficiário da previdência fizeram com que muitos relutassem em procurar ajuda.

“O sistema tem regras que priorizam a assistência dos familiares. Assim, as famílias recebem avisos dizendo que seu filho pediu ajuda”. Mas muitas pessoas não querem que seus familiares saibam que estão pedindo ajuda, porque acham isso uma vergonha, pontuou Ohnishi.

“É um sistema muito japonês. Todos têm os direitos legais para usá-lo. Mas a sociedade não necessariamente tolera isso”, disse Ohnishi.

As associações estão cientes de que há países muito mais pobres, com problemas maiores do que o Japão, mas mesmo assim destacam a dificuldade de encontrar ajuda para quem precisa e o estigma que sofrem.

Um homem que recebe ajuda em Ikebukuro disse que sua renda mensal com a construção caiu e que ele só tinha dinheiro suficiente para mais um aluguel.

“Não quero ir para a rua. Está muito frio”, disse ele, recusando-se a dar o seu nome. “Não sei exatamente o que vou fazer agora”.

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