Kintsugi – Um costume japonês que valoriza coisas quebradas

2021.08.21

Por Bruno Hamada

Kintsugi (金 継 ぎ, “emenda dourada”), é a arte japonesa de consertar cerâmica quebrada, remendando as áreas rachadas com massa pulverizada ou misturada com ouro em pó, prata ou platina. Como filosofia, trata a quebra e o reparo como parte essencial da história de um objeto, ao invés de algo para disfarçar.

Essa técnica é inspirada em outra parte da cultura nipônica chamada Wabi Sabi: Na estética tradicional japonesa, wabi-sabi (侘 寂) é uma visão de mundo centrada na aceitação da transformação e da imperfeição. A harmonia dessa estética é a capacidade de apreciar a beleza de uma forma diferente“ sendo ela, imperfeita, impermanente e incompleta” por natureza.

É um conceito derivado do ensino budista das três marcas da existência (三法 印, sanbōin), especificamente impermanência (無常, mujō), sofrimento (苦, ku) e vazio ou ausência de natureza própria (空, kū). As características da estética e dos princípios wabi-sabi incluem assimetria, aspereza, simplicidade, economia, austeridade, modéstia, intimidade e a apreciação tanto dos objetos naturais quanto das forças da natureza.

Kintsugi pode se relacionar com a filosofia japonesa de mushin (無心, “sem mente”), que engloba os conceitos de desapego, aceitação de mudança e destino como aspectos da vida humana. O reparo é literalmente iluminado. Uma categoria de expressão física do espírito de mushin.

Essa palavra carrega a ideia de “existindo no momento”, de desapego, de aceitação das mudanças às quais todos somos suscetíveis, não poderiam ser mais claras do que nas rupturas e estilhaços, aos quais também estão sujeitas as peças de cerâmica.

  Christy Bartlett, Flickwerk: A estética da cerâmica japonesa remendada.

Todo esse valor filosófico é visto em outras culturas e remete à essência humana de caráter e capacidade de perdão e na personalidade do indivíduo.

Os erros são tudo aquilo que nos fazem aprender, desde a infância, nos ensina caminhar e a falar, enfim, os erros são tudo aquilo que nos fazem evoluir como indivíduos e sociedade.

Aquilo que nos faz únicos biologicamente remete às falhas. O que difere fisicamente cada indivíduo de uma espécie são nada mais que erros genéticos, falhas na cópia do código que nos fará exatamente como somos. O que torna a evolução das espécies possível são pequenas falhas existentes nestes códigos, que transparecem na feição e funcionamento de cada organismo vivo separadamente, permitindo assim a adaptação ao meio, independente de suas adversidades da natureza.

Kintsugi - Um costume japonês que valoriza coisas quebradas