PESSOAS QUE INSPIRAM: INTÉRPRETE MÉDICA NO JAPÃO

2021.03.12

Adquirir o conhecimento da língua japonesa pode trazer vários benefícios para os estrangeiros que moram no Japão, como ter melhores oportunidades de trabalho, obter um maior entendimento sobre a cultura e a realização profissional na área em que desejam.

Se você mora no Japão e está em busca de uma motivação para dar um passo à frente e conquistar seus objetivos profissionais morando aqui, não deixe de ler nossos especiais sobre profissões no Japão. Aqui, vamos compartilhar com vocês um pouco sobre as oportunidades e áreas de trabalho que nós estrangeiros, podemos atuar e se destacarmos. Queremos inspirar vocês, através do relato e da trajetória de outras pessoas, a também correrem atrás dos sonhos de vocês. E, para estrearmos esse novo espaço, iremos falar sobre o trabalho de um intérprete médico no Japão.

A IMPORTÂNCIA DO INTÉRPRETE MÉDICO 

Uma das maiores preocupações para quem mora no exterior e não domina o idioma local, é ter que ir sozinho ao hospital, seja para realizar consultas regulares ou até mesmo em casos de emergências. Devido ao aumento do número dos residentes estrangeiros e à essa barreira na comunicação, muitos hospitais passaram a disponibilizar intérpretes para acompanharem os pacientes que não dominam muito bem o idioma japonês. No especial de hoje, vamos entrevistar a brasileira Shirlei Kato, descendente de japoneses da terceira geração, que trabalha como intérprete em um hospital da província de Mie-ken.

Dia a Dia: 1-Primeiramente gostaríamos de saber como você começou a trabalhar com traduções e o que te motivou a seguir esse caminho.

Shirlei: No início comecei fazendo interpretação médica em clínicas, costumava ajudar as amigas levando-as ao ginecologista, às vezes acompanhava seus filhos no dentista, na pediatria e outras vezes na escola japonesa. Nesta época (há uns 15 anos) percebi que não havia intérprete disponível e a maioria das pessoas contava apenas com a ajuda dos encarregados da empreiteira; que por sinal, sempre foram muito atarefados também. Assim, com o intuito de adquirir experiência e ajudar a comunidade local, iniciei o trabalho de interpretação e tradução de documentos.

Dia a Dia: 2-Gostaríamos que você falasse um pouco sobre como é a experiência de trabalhar como intérprete em um hospital. 

Shirlei: No meu ponto de vista, vejo que não apenas na área da saúde, mas também na área educacional tivemos muitos avanços. A prova disto é que atualmente dispomos de intérpretes em hospitais, escolas, prefeituras, agências de emprego, fóruns, dentre outros, que são locais em que realmente a comunidade necessita de um suporte em seu idioma e que tem facilitado muito a vida dos estrangeiros. Já trabalhar em um hospital implica assumir várias responsabilidades que requerem certas habilidades e capacidades. É necessário ter uma grande competência humana para saber lidar com perfis de diferentes pessoas, em diferentes níveis educacionais e sociais.

PESSOAS QUE INSPIRAM: INTÉRPRETE MÉDICA NO JAPÃO  (“Com o intuito de adquirir experiência e ajudar a comunidade local, iniciei o trabalho de interpretação e tradução de documentos”- Shirlei, intérprete médica/ Foto: Vivian Kieko)

Dia a dia: 3-Os diagnósticos e os métodos de tratamento do Japão, são muito diferentes do Brasil? Em relação à tecnologia, você considera o sistema médico do Japão avançado? 

Shirlei: No Japão, caso o médico suspeite de alguma doença, o diagnóstico geralmente é feito em algumas horas, após obter o resultado de alguns exames (por ex: coleta de sangue, urina, fezes, radiografia, etc, depedendo sempre dos sintomas apresentados pelo paciente). A praticidade tecnológica aqui no Japão é um ponto que se destaca, pois o hospital possui toda a infraestrutura necessária para realizar exames de pequeno e grande porte, então, por exemplo, se o paciente chega às 9 horas manhã para a consulta, normalmente, até às 12 horas ele já terá feito todos os exames necessários no próprio hospital, recebido seu diagnóstico, e saído com sua receita médica nas mãos.

Tudo isso é realizado em um período de aproximadamente 3 a 4 horas.  Nos casos em que o paciente precisa de exames mais detalhados como por exemplo, endoscopia, colonoscopia, ressonância magnética, biópsia, etc., o próprio médico já agenda o exame para a data mais próxima possível, possibilitando que o tempo de espera para um diagnóstico, seja o menor possível. Outro ponto que temos que destacar é que no Japão, existe o seguro Nacional de Saúde, no qual qualquer cidadão pode se afiliar e ter acesso às instituições médicas, arcando com apenas 30% das despesas médicas hospitalares. Há também o Gendo Gaku Tekiou Ninteisho, conhecido como Hoken Branco pela comunidade brasileira, que nada mais é do que uma espécie de abate de despesas médicas elevadas, no qual se estipula dentro de uma categoria, um valor limite de despesa hospitalar, de acordo com a renda do paciente.

Dia a Dia: 4-Para um estrangeiro que acabou de chegar ao país, ir desacompanhado à um hospital pode se tornar um grande desafio, principalmente pelos termos médicos (que são complexos em qualquer idioma) pela forma como o diagnóstico e o tratamento são realizados e pelas próprias diferenças culturais. Essas barreiras muitas vezes impedem que os estrangeiros se sintam confortáveis em ir à um hospital no Japão, mas como você consegue transmitir confiança para os pacientes brasileiros?

Shirlei: Acredito que mais do que transmitir confiança, transmitir a segurança ao meu ver, é o aspecto mais importante. O estrangeiro recém chegado ao Japão não domina o idioma, os hábitos e a cultura, e é normal se sentir desconfortável e inseguro ao colocar os pés pela primeira vez em um hospital japonês. Eu, como pessoa, entendo que não é fácil falar de seus sintomas à um desconhecido, mesmo que este desconhecido seja o intérprete do hospital.  Uma parte do meu trabalho é transmitir segurança à estes pacientes, ouvindo suas necessidades médicas, coletando as informações necessárias e os auxiliando dentro do hospital da melhor maneira possível.

A equipe médica hospitalar também é muito competente, hoje em dia temos enfermeiras e médicos que estudam idiomas como o português e espanhol e conseguem fazer todos os cumprimentos matinais no idioma do paciente. Tentamos criar um ambiente agradável onde o paciente possa se sentir confortável e receber um atendimento médico de qualidade.

Dia a Dia: 5- Em sua opinião, o que é mais difícil na hora de fazer as interpretações do idioma, traduzir do português para o japonês ou o japonês para o português? Você acha que uma intérprete deve levar em consideração os sentimentos que estão além da fala dos pacientes, ou traduzir exatamente o que foi dito na consulta?    

Shirlei: Acredito que você sempre terá mais facilidade no idioma de sua língua materna. Com o passar do tempo e acúmulo de experiência essas linhas se tornam mais tênues e as dificuldades mesmo estando presentes, não assumem tamanho ou proporções que comprometam a totalidade de seu trabalho.

Antes da consulta, o paciente responde a um questionário, no qual tem a oportunidade de escrever sobre seus sintomas e dúvidas. Este momento é importante para que ele defina exatamente o objetivo de sua vinda ao hospital. Durante a consulta, o intérprete médico segue a norma ética, devendo ser imparcial, ou seja, não adicionar, retirar ou alterar o que médico e paciente falam entre si, portanto é imprescindível o paciente ter consciência do que realmente quer saber e perguntar ao médico no momento da consulta, pois o intérprete traduzirá apenas o que está sendo dito durante a consulta.

PESSOAS QUE INSPIRAM: INTÉRPRETE MÉDICA NO JAPÃO  (“Durante a consulta, o intérprete médico segue a norma ética, devendo ser imparcial, ou seja, não adicionar, retirar ou alterar o que médico e paciente falam entre si”- expressa Shirlei/ Foto: Vivian Kieko) 

QUERO SEGUIR ESSA PROFISSÃO, MAS POR ONDE COMEÇO?

Dia a Dia: 6-Gostaríamos que você comentasse um pouco sobre sua experiência até aqui, quais cursos são necessários e quais setores uma intérprete pode trabalhar dentro de um hospital.

Shirlei: Como citei anteriormente, comecei fazendo interpretações médicas em clínicas e hospitais de pequeno porte. Quando me mudei para Mie-ken soube do curso de intérprete médico pela MIEF e resolvi me inscrever.

Para iniciar na carreira de intérprete médico, deverá no mínimo ter realizado um curso de intérprete médico, no qual deverá ser aprovado nos testes iniciais para só depois iniciar o curso em si. A maioria dos cursos que são ministrados para os intérpretes médicos, exigem nível de proficiência em japonês N2, então posso dizer que fácil, não é, mas impossível também não. Realizei os cursos de intérprete médico pela MIEF (Mie-ken) em 2014, e no ano seguinte pela AIMI (Aichi-ken). Em março de 2020, adquiri meu certificado de intérprete médico nos idiomas português e espanhol pela ICM (International Society of Clinical Medicine), que atualmente é o nível mais elevado de certificação nesta área.

OPORTUNIDADES DE TRABALHO

Trabalho no hospital como intérprete há 6 anos, e o trabalho que o intérprete realiza dentro do hospital é muito amplo. Realizamos interpretações médicas em todos os setores do hospital, como o acompanhamento do paciente desde a sua chegada na recepção, nas consultas médicas, no momento da cirurgia, até o momento de sua alta hospitalar. Também realizamos muitas traduções no setor de contabilidade e assistência social (sobre despesas hospitalares, trâmites de certificados e carteirinhas, documentações, etc). Também fazemos muitas traduções de documentos hospitalares sobre cirurgias, procedimentos e tratamentos. Na verdade, o serviço dentro do hospital nunca acaba, sempre tem algo para se fazer.

Há um detalhe: o intérprete médico caminha muito dentro do hospital. Em um dia cheio, caminhamos mais de 10 mil passos apenas dentro do hospital, portanto, para quem almeja este trabalho é essencial incluir algum tipo de atividade física em sua rotina. Lembre-se: quanto maior for a instituição hospitalar, maior será a demanda de conhecimento, esforço físico e mental.

PESSOAS QUE INSPIRAM: INTÉRPRETE MÉDICA NO JAPÃO  (“Para quem almeja este trabalho é essencial incluir algum tipo de atividade física em sua rotina”-acrescenta Shirlei/Foto: Vivian Kieko)

Dia a Dia: 7-Falando sobre a comunidade brasileira, muitos brasileiros costumam procurar o hospital em que você trabalha?

Shirlei: Sim, há muita procura. Em 2019, atendemos em nosso hospital 5 mil pacientes, sendo que 90% destes pacientes são brasileiros. Segundo os dados do governo, até fevereiro de 2020 foram registrados um total de 13.300 brasileiros residentes em Mie-ken. É possível consultar no site da MIEF a lista com o nome dos hospitais e clínicas que dispõem de intérpretes médicos, assim como também os idiomas de suporte. Vale a pena conferir esta lista e verificar qual é a instituição médica com intérprete mais próxima de sua residência.

VENCENDO A BARREIRA DO IDIOMA 

PESSOAS QUE INSPIRAM: INTÉRPRETE MÉDICA NO JAPÃO  (“Aprender um segundo idioma lhe possibilita adquirir novos conhecimentos, enriquece suas interações sociais e culturais- Shirlei/Foto: Vivian Kieko)

Dia a Dia: 8-Como você aprendeu o japonês e o que te incentiva a continuar estudando, pretende fazer traduções para outros idiomas?

Shirlei: Quando cheguei no Japão, não falava japonês. Comprei um dicionário e para onde quer que fosse, o carregava. Sempre que me diziam algo eu ia lá pesquisar; desta maneira, em 1 ano expandi bastante meu vocabulário. Depois disso, me matriculei no Kumon, e estudei lá por 2 anos também. Posteriormente, me casei com um japonês, o que me possibilitou entender um pouco mais sobre a sociedade, os hábitos, o modo de pensar e ver o mundo dos japonesesAprender um segundo idioma lhe possibilita adquirir novos conhecimentos, enriquece suas interações sociais e culturais, desenvolve as funções cognitivas como linguagem, memória, percepção, raciocínio, dentre outras, ampliando ainda mais sua percepção de mundo, tornando você uma pessoa mais tolerante e culturalmente mais consciente.

Dia a Dia: 9-O sistema médico do Japão realmente está preparado para lidar com os estrangeiros? Na sua opinião, o atendimento é feito da mesma forma que seria feito à um japonês? 

Shirlei: Os hospitais e clínicas que possuem intérpretes médicos, certamente estão preparados para atender o paciente estrangeiro, justamente porque estes já entenderam a necessidade de ter um intérprete para solucionar as várias dificuldades que o hospital e o paciente estrangeiro enfrentam quando não é possível estabelecer uma comunicação entre ambos. No ambulatório ouço muitas dúvidas dos pacientes, como por exemplo: “Meus remédios que trouxe do Brasil estão acabando, será que esse mesmo remédio tem aqui no Japão?”; “Operei no Brasil e voltei a ter dor, como o médico poderá me ajudar se não foi ele quem me operou?”; “Acho que estou grávida, como farei o pré-natal aqui?”; “Tenho hérnia, se precisar operar vai ficar muito caro? Vou precisar parar de trabalhar, ficarei sem salário?…”; E por aí, tantas outras dúvidas e incertezas.

O paciente estrangeiro recebe todo o suporte necessário, não só na comunicação com o médico como também nos trâmites de documentos para o recebimento de salário, assim como suporte para a diminuição de gastos médicos. Acredito que o atendimento ao estrangeiro seja até melhor do que o atendimento a um japonês, visto que o japonês chega ao hospital e tem que se informar, procurar e perguntar por conta própria, e o paciente estrangeiro tem toda a facilidade e acesso a várias informações diretamente, sem precisar pagar pelo serviço do intéprete ou ter que ir buscar todas estas informações nos órgãos responsáveis, como Ministério do Trabalho, ou prefeitura.

Dia a Dia: 10-Para finalizar, gostaríamos que você deixasse uma mensagem para as pessoas que sonham em trabalhar como intérpretes nos hospitais. 

Shirlei: Bem, se almeja ser intérprete médica, sugiro que comece fazendo os cursos que estão disponíveis, pois estes a qualificarão e a ajudarão a ter uma base dos princípios fundamentais. Tenha em mente que o curso de intérprete lhe proporcionará apenas uma base, o que não significa que apenas o curso já é o suficiente. Seguir estudando é sempre a melhor maneira de ir aprendendo e evoluindo aos poucos, gradativamente. É sempre bom manter relações com intérpretes veteranas, pois estas poderão orientá-la(o) caso encontre alguma dificuldade pelo caminho. Desenvolva também o hábito de manter sempre a imparcialidade, o pensamento lógico e não tomar para si o problema que é do outro.

PESSOAS QUE INSPIRAM: INTÉRPRETE MÉDICA NO JAPÃO  (Shirlei explica como é ser uma intérprete médica no Japão/Foto: Vivian Kieko)

“A REALIZAÇÃO DE NOSSOS SONHOS SÓ SE MATERIALIZA COM AS NOSSAS AÇÕES DIÁRIAS, PRIORIZANDO O QUE REALMENTE IMPORTA”- SHIRLEI KATO.

Os intérpretes não precisam ter somente o conhecimento de diferentes línguas, mas como também entenderem a cultura e o comportamento das partes envolvidas na conversação, além de um certo conhecimento sobre o tema que está sendo traduzindo. Esperamos que vocês tenham gostado de conhecer um pouquinho mais sobre essa profissão tão importante e desafiadora, e quem sabe até se inspirado na trajetória de nossa entrevistada para seguir essa profissão. Até o próximo especial pessoal!

Agradecimento especial ao 桑名市総合医療センター por nos ceder o espaço para registrar as fotos.


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