Um lado sombrio do Japão: as atrocidades cometidas pelos militares do exército imperial

2021.11.16

Se você fazer uma rápida pesquisa sobre quais são os pontos positivos do Japão, de uma forma geral, é bem provável que você encontre nos resultados que o Japão é um país organizado, muito seguro, tecnológico, com paisagens incríveis e que mantém suas tradições. E se você pesquisar sobre os pontos negativos, talvez apareça o alto índice de suicídios, estresse pelas longas jornadas de trabalho, terremotos e tsunamis.

O Japão é um país que já passou por altos e baixos, renasceu das cinzas diversas vezes e hoje é uma das maiores potências mundiais. No entanto, há uma parte quase sempre “apagada” da história: os crimes de guerra que ocorreram durante o período do imperialismo japonês (final do século 19 até meados do século 20).

Esses crimes foram cometidos principalmente durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, um conflito militar travado entre a República da China e o Império do Japão no período de 1937 a 1945, e durante a Guerra Pacífico- Asiática, que foi palco para a Segunda Guerra Mundial no território da Ásia, Oceano Pacífico, Oceano Índico e Oceania.

Líderes e estudiosos de muitos países consideram que o Exército Imperial Japonês (IJA) e a Marinha Imperial Japonesa (IJN) são responsáveis pelo assassinato e por outros crimes cometidos contra milhões de civis e prisioneiros de guerra, através do massacre, experimentação humana, fome, tortura, trabalho forçado, canibalismo, exploração sexual e outros crimes.

Crimes de guerra cometidos pelo exército imperial japonês

Um lado sombrio do Japão: as atrocidades cometidas pelos militares do exército imperial

Crédito: BBC

Os crime de guerra podem ser definidos como comportamentos ilegais por parte de militares contra a população civil inimiga ou combatentes inimigos. No Japão, os criminosos de guerra foram julgados em três categorias: “Classe A” que cometiam crimes contra a paz,  “Classe B” que foram culpados por crimes de guerra e os criminosos “Classe C” que foram aqueles condenados por crimes contra a humanidade.

Na Coreia e em outros países, a definição de crimes de guerra japoneses é feita em diferentes períodos de tempo. Alguns coreanos referem-se aos crimes de guerra japoneses como crimes que ocorreram de 1910 até 1945. Esses crimes nem sempre foram cometidos por militares de nacionalidade japonesa, pois uma pequena minoria de habitantes de cada país invadido e ocupado pelo Japão também colaborou e/ou foram forçados a servirem às tropas japonesas.

Por que os soldados japoneses cometiam tantas atrocidades?

Um lado sombrio do Japão: as atrocidades cometidas pelos militares do exército imperial

Crédito: Three Lions/Getty Images

Nos séculos anteriores, os samurais japoneses haviam sido ensinados a obedecerem seus senhores, a não questionar e a serem bem destemidos nas batalhas. No final da década de 1930, o militarismo japonês criou similaridades pelo menos superficiais entre a cultura militar japonesa e a elite militar da Alemanha Nazista. Neste período, o Japão também tinha uma polícia militar secreta, conhecida como “Kempeitai”. Como em outras ditaduras, a brutalidade irracional, sentimentos de ódio e o medo se tornaram “normais”.

As atrocidades dos civis japoneses

Um lado sombrio do Japão: as atrocidades cometidas pelos militares do exército imperial

Crédito: © Hulton-Deutsch Collection/CORBIS/Corbis via Getty Images)

Dentre os tipos de atrocidades que os criminosos de guerra cometiam estava espancar os oficiais que discordavam do imperador. O castigo era repassado para os escalões inferiores e nos campos de prisioneiros, isso significava que eles receberiam as piores surras. Segundo o historiador Chalmers Johnson, os militares japoneses assassinaram cerca de 30 milhões de filipinos, malaios, vietnamitas, cambojanos, indonésios e pelo menos 23 milhões de chineses étnicos.

A taxa de mortalidade de prisioneiros de guerra de nacionalidade chinesa era muito maior, já que a diretriz ratificada no dia 5 de agosto de 1937, que retirou as restrições da lei internacional quanto ao tratamento dos prisioneiros, libertou apenas 56 prisioneiros chineses após o rendimento do Japão…

Amputações e Vivissecção de Humanos

Além dos massacres em massa, unidades militares do Japão realizavam “experimentos” com civis e prisioneiros de guerra chineses, sendo a unidade 731 uma das mais cruéis, eles colocavam as vítimas para sofrerem os piores tipos de crueldades possíveis. Os prisioneiros eram submetidos à amputações, vivissecção (ato de dissecar um animal vivo com o objetivo de realizar estudos) sem nenhuma anestesia e eram usados como cobaias para testes de armas biológicas.

Os militares japoneses também torturavam os prisioneiros, e uma das torturas mais realizadas era afogar a vítima derramando água em sua cabeça até que ela perdesse a consciência e então eles “ressuscitavam-as” de forma brutal. Os torturadores tiravam a água de seus pulmões pulando em seu abdômen para depois submetê-los a uma nova sessão de tortura.

Um lado sombrio do Japão: as atrocidades cometidas pelos militares do exército imperial

Crédito: Imagem de domínio público

Os militares do exército Imperial japonês também são responsáveis por obrigar civis holandeses, franceses, britânicos, australianos, neozelandeses, chineses, filipinos e prisioneiros de guerra ao trabalho forçado. O trabalho forçado na construção da Ferrovia Birmânia, também conhecida como a Ferrovia da Morte, tirou a vida de mais de 100 mil civis e prisioneiros. Essa Ferrovia tem 415 km de extensão entre Bangkok, Tailândia, Rangum e Birmânia (Myanmar) e foi construída pelo Império japonês durante a Segunda Guerra Mundial.

A prostituição das mulheres

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Crédito: Fonte desconhecida

O Japão usa o termo “mulheres de conforto” para se referir às mulheres que foram recrutadas à força ou através de golpes para trabalhar nos bordéis militares. Essas mulheres foram vítimas de abusos e agressões sexuais.

“As mulheres gritavam, mas não nos importava se elas viviam ou morriam. Éramos os soldados do imperador. Fosse os bordéis militares ou nas aldeias, nós (as violentávamos) sem hesitação”-admitiu um veterano de Guerra Yasuji Kaneko.

Não foram apenas as mulheres coreanas vítimas de abusos cometidos pelos militares japoneses. Em 2007, dois historiadores encontraram arquivos do Julgamento de Tóquio com documentos oficiais que sugeriam que as forças militares do período imperial ameaçassem mulheres para “trabalhar” nos bordéis durante as batalhas de frente na China, Indochina e Indonésia. No mesmo ano de 2007, um jornalista também descobriu 30 documentos do governo neerlandês que evidenciavam a prostituição em massa no ano de 1944 em Magelang (Indonésia). Vítimas do Timor-Leste também relataram que foram raptadas quando ainda eram crianças e levadas aos bordéis militares, onde eram violentadas com frequência pelos soldados japoneses.

O que aconteceu com os soldados de guerra após 1945?

Após a guerra, os Aliados (Reino Unido, França, EUA, União Soviética) incriminaram 25 criminosos de guerra como “Classe A”, 5.700 como criminosos “Classe B” e “Classe C. No total, 984 homens foram condenados à morte, mas apenas 920 foram executados, 475 foram condenados à prisão perpétua, 2944 receberam penas de encarceramento, 1018 foram absolvidos e 279 não receberam nenhuma punição. De todos os criminosos de guerra, 178 eram taiwaneses étnicos e 148 coreanos étnicos. Em 2006, o governo sul-coreano “perdoou” 83 dos 148 criminosos de guerra coreanos, considerados “vítimas do imperialismo japonês”.

A remissão do Japão

 

 

Um lado sombrio do Japão: as atrocidades cometidas pelos militares do exército imperial

Crédito: Popperfoto via Getty Images

Em 1945, houve um dos momentos mais tristes e trágicos da história da humanidade: o lançamento das bombas-atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Após esse episódio, os japoneses se renderam.

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Crédito: Army Signal Corps Collection in the U.S. National Archives.

O Ministro das Relações Exteriores do Japão Mamoru Shigemitsu assinou o documento que oficializou a rendição do Japão, encerrando oficialmente a Segunda Guerra Mundial. Desde a década de 1950 funcionários de altos cargos do governo japonês emitiram inúmeros pedidos de desculpas pelos crimes de guerra cometidos no Japão Imperial.

Existe uma série de atrocidades cometidas pelos militares japoneses que não foram citadas neste post. Até os dias atuais muitas pessoas desconhecem essa parte da história do Japão, ou acabam não se aprofundando muito por ser um assunto muito forte. Para quem tiver curiosidade e queira saber mais sobre este assunto, existem livros, filmes e muitos documentários interessantes.

トラ・トラ・トラ(Tora! Tora! Tora!)

Um filme lançado em 1970 que mostra os dois lados da mesma história: o lado japonês e o americano, mostrando os detalhes e os eventos que levaram ao ataque a Pearl Harbor em 1941.

Direção: Richard Fleischer (EUA) e Kinji Fukasaku e Toshio Masuda (Japão).

* Embora o diretor inicial tenha sido Akira Kurosawa, um dos maiores diretores japoneses, a 20th Century Fox acabou cortando-o da produção e não considerando sua participação.

Fontes de referência: Wikipédia/Tok de História 


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