Uma história que não te contaram: Como o Bairro da Liberdade acolheu os imigrantes japoneses

2021.02.26

São Paulo, é o lar de um dos maiores bairros orientais do mundo, lá os imigrantes japoneses criaram uma cultura única e junto aos imigrantes chineses e coreanos, conseguiram transformar o bairro em uma comunidade multiétnica.

Uma história que não te contaram: Como o Bairro da Liberdade acolheu os imigrantes japoneses  Crédito: Nippon

A “Asiatown” fica localizada no centro de São Paulo- que é considerada a maior cidade da América do Sul. Esse é um dos principais pontos turísticos da cidade e também é conhecido como o Bairro Oriental ou como o Bairro da Liberdade, nome da estação metrô local.

Imigração japonesa no Brasil

A imigração de japoneses no Brasil teve início em 1908, com o navio Kasato Maru saindo do porto de Kobe (Japão). O navio transportava cerca de 800 japoneses, dos quais a maioria havia sido contratada para trabalhar em plantações de café no interior de São Paulo.

No ano de 1910, dezenas de trabalhadores abandonaram o trabalho agrícola e começaram a se mudar para a cidade de São Paulo. Segundo a história, por volta de 1912, muitos imigrantes estavam deixando a vida no campo para se estabelecerem próximo à inclinada Rua Conde de Sarzedas, formando assim a primeira comunidade japonesa no Brasil.

Um dos motivos pelos imigrantes escolherem essa rua, é que a maioria dos imóveis tinham porões e os aluguéis dos quartos eram relativamente baratos. Para os imigrantes, aquele canto especial na cidade de São Paulo significava um recomeço e esperança de dias melhores.

Com a melhora da situação econômica, a comunidade se expandiu pelo “morro acima” e o bairro começou a ver um aumento de imigrantes japoneses e ter maior prosperidade na década de 1930. Nessa época já havia atividades comerciais como hospedaria, pequenas fábricas de tofu (queijo de soja) manju (doce típico japonês), firmas que agenciavam empregos e até mesmo uma escola primária para os filhos dos japoneses.

Uma história que não te contaram: Como o Bairro da Liberdade acolheu os imigrantes japoneses  Crédito: Nippon

Durante a Guerra do Pacífico, os japoneses foram declarados como “inimigos estrangeiros”, mas após esse triste período, o bairro oriental expandiu-se, surpreendendo à todos. Um dos principais motivos dessa expansão, foi a inauguração do primeiro cinema japonês do Brasil: o Cine Niterói fundado em 1953 por Tanaka Yoshikazu, um japonês de primeira geração que atuava como corretor de grãos de feijão.

Um marco cultural para a comunidade nikkei

Uma história que não te contaram: Como o Bairro da Liberdade acolheu os imigrantes japoneses  Crédito: Nippon

O prédio do cinema ficava localizado na Rua Galvão Bueno e contava com cinco andares, sendo o cinema no primeiro andar com capacidade para 1.500 pessoas, um restaurante, um hotel nos outros andares superiores e um salão de festa.

O Cine Niterói foi um grande marco para os imigrantes japoneses no Bairro da Liberdade. Toda semana eram exibidos diferentes filmes produzidos no Japão, e aos finais de semana, a área ao seu redor ficava lotada de pessoas que buscavam por diversão.

Depois de um tempo, foram inaugurados mais três concorrentes: Nanbei Gekijō, Cine Tokyo e Cine Nippon. Para atender a demanda, alguns restaurantes e lojas foram surgindo, criando assim um distrito comercial que lembrava um pouco do Japão.

Em abril de 1964, foi inaugurado o Edifício do Centro Nihon Bunka Kyōkai (Associação Paulista de Cultura Japonesa e Assistência Social), na Rua Galvão Bueno.

No passado, os edifícios envelhecidos de dois andares, os cinemas japoneses e o centro cultural formavam o “núcleo” que depois evoluiu para o Bairro Oriental.

Uma história que não te contaram: Como o Bairro da Liberdade acolheu os imigrantes japoneses  Crédito: (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social)

Influência de outras culturas

Nas décadas de 1960 e 1970, a rua Galvão Bueno precisou passar por uma reforma para a construção da Estação Liberdade do metrô, e com isso, o Cine Niterói foi obrigado a se mudar para a esquina da Avenida Liberdade com a Rua Barão de Iguape.

Muitos outros comércios também fecharam devido à reforma. No entanto, alguns líderes da comunidade como Tanaka Yoshikazu e o empresário Mizumoto Tsuyoshi, transformaram a situação em uma oportunidade para expandir o bairro.

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No ano de 1974, um torii (geralmente colocado na entrada dos tempos xintoístas no Japão) marcou o “renascimento” do bairro, e celebrações japonesas como Hana-matsuri, Festival Tanabata e Festival Mochitsuki foram adaptadas e passaram a fazer parte da cultura local.

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A chegada dos imigrantes de Taiwan, da Coreia do Sul e da China ao Bairro Oriental

Na década de 1960, muitos imigrantes sul-coreanos, taiwaneses e chineses começaram a chegar no Brasil. A maioria se instalava no Bairro Oriental, talvez pela proximidade do local de origem e a maior facilidade para se comunicarem em uma língua que conheciam.

Atualmente, a parte no extremo leste do Bairro da Liberdade abriga o Centro Cultural Chinês de São Paulo, a Associação Cantonesa do Brasil, o Templo Kodoin Kwan Yin do Brasil, e outras instalações da comunidade chinesa e taiwanesa, como lojas e restaurantes, formando assim uma pequena Chinatown.

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Brasil: terra de várias culturas

Só quem mora ou já visitou, sabe como o Brasil é um país muito diversificado, e o acolhimento de outras culturas só torna-o um país cada vez mais rico culturalmente.

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A evolução dos Bairro da Liberdade até os dias atuais

Na década de 1990, houve um aumento do número de nipo-brasileiros que vieram trabalhar no Japão. Os imigrantes da primeira geração já estavam envelhecendo e a comunidade nikkei corria o risco de se desintegrar. No entanto, o interesse dos jovens pela cultura popular japonesa ganhou impulso e foi reinterpretada pelo olhar brasileiro. Um exemplo dessa reinterpretação, está na culinária japonesa.

-Típico Sushi Japonês:

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-Sushi mais “abrasileirado”:

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Uma cultura única

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No início dos anos 2000, muitos cosplayers e amantes da cultura pop japonesa, passaram a se reunir no Bairro da Liberdade aos fins de semana. Atualmente, o bairro é o lar de muitos nipo-brasileiros e descendentes de várias gerações que ainda preservam elementos que lembram a cultura japonesa de uma forma diferenciada.

A chegada do coronavírus

Com a pandemia do coronavírus avançando pelo mundo e com os bloqueios impostos para conter a disseminação do vírus, vários pontos comerciais do Bairro Oriental foram obrigados a fecharem, tornando o bairro (que antes era muito movimentado) em uma “cidade-fantasma”.

Felizmente, em julho de 2020 várias lojas começaram a retomar seus negócios, adotando várias medidas para conter o coronavírus: como a verificação da temperatura, desinfecção das mãos e limitação do número de visitantes.

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Os eventos organizados pela Nihon Bunka Fukushi Kyōkai, passaram a ser realizados on-line via Youtube e Facebook devido às condições pandêmicas, mas com a preferência da geração mais antiga pela interação analógica, os próximos eventos serão realizados tanto on-line quanto presenciais.

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Apesar das dificuldades do passado e agora ao forte impacto da pandemia no Brasil, a comunidade nikkei continua firme e forte, buscando novos caminhos para preservar a cultura única que se formou no coração de São Paulo.

E aí, alguém aqui já visitou o Bairro da Liberdade, ou sente saudade desse pedacinho do Japão no Brasil?

Créditos principais: nippon.com

#curiosidades

 


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